A construção da Ponte Salvador-Itaparica, um dos projetos de infraestrutura mais aguardados da Bahia, começou a apresentar avanços concretos em 2026 depois de décadas de discussões, anúncios e adiamentos. Com 12,4 quilômetros de extensão sobre a Baía de Todos-os-Santos, o empreendimento tem investimento estimado em R$ 11,6 bilhões e previsão contratual de conclusão em junho de 2031.
O avanço mais recente confirmado pelo governo estadual ocorreu em 22 de outubro, quando as equipes chegaram à 21ª estaca cravada para a implantação de uma central de concreto no meio da baía. A estrutura servirá à construção do trecho central da ponte, considerado um dos pontos mais complexos de toda a engenharia.
Também em outubro, o governo federal formalizou a destinação de R$ 3 bilhões, por meio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), para custear parte dos aportes públicos previstos na parceria público-privada.
A movimentação representa uma mudança importante na trajetória de uma ligação rodoviária discutida desde a segunda metade do século passado. Entretanto, a presença de máquinas, trabalhadores e estruturas marítimas não elimina os desafios financeiros, ambientais e técnicos que ainda precisam ser superados.
De uma promessa antiga ao início das obras em 2026
A proposta de estabelecer uma ligação fixa entre Salvador e a Ilha de Itaparica surgiu há décadas como alternativa para melhorar o transporte entre a capital e o interior do estado.
Atualmente, quem pretende chegar à ilha pode utilizar o sistema ferry-boat, entre os terminais de São Joaquim, em Salvador, e Bom Despacho, na ilha, ou realizar um percurso rodoviário mais longo pelo Recôncavo Baiano, passando pela Ponte do Funil.
A travessia marítima dura aproximadamente uma hora, mas o tempo total depende da operação do sistema, das filas e da movimentação de passageiros e veículos.
Com a nova ponte, a estimativa oficial é reduzir o tempo de travessia rodoviária entre Salvador e a ilha para aproximadamente 15 minutos.
Apesar do potencial de transformação, o projeto enfrentou sucessivos obstáculos. Entre eles estiveram dificuldades de financiamento, mudanças nas condições econômicas, exigências ambientais, revisões de engenharia e negociações contratuais.
O leilão da concessão ocorreu em dezembro de 2019, com a participação de um único consórcio, formado por empresas chinesas. O contrato foi assinado em 12 de novembro de 2020.
A pandemia de Covid-19 e as alterações nos custos de construção exigiram uma renegociação do modelo econômico-financeiro.
Em junho de 2025, depois de um processo de mediação acompanhado pelo Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA), foi assinado um termo aditivo que reorganizou as condições do contrato e estabeleceu um novo cronograma.
O início oficial da construção civil foi marcado em 1º de julho de 2026, durante uma cerimônia em Vera Cruz, com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do governador Jerônimo Rodrigues.
Engenharia chinesa prevê ponte com vão de 682 metros
A nova ligação rodoviária reúne soluções de engenharia para a construção de fundações em ambiente marítimo, com estruturas capazes de suportar grandes cargas e condições adversas de operação.
O trecho mais complexo será a parte estaiada, onde o tabuleiro da ponte será sustentado por cabos de aço conectados a grandes torres.
O projeto atualizado prevê um vão central estaiado de 682 metros, dimensionado para preservar a circulação de embarcações de grande porte na Baía de Todos-os-Santos.
A altura livre de navegação prevista é de aproximadamente 85 metros, enquanto o canal de passagem terá cerca de 400 metros de largura.
Essa configuração busca evitar que a ponte se torne um obstáculo para navios comerciais, petroleiros e outras embarcações que utilizam a região.
A construção será executada por uma concessionária constituída por empresas chinesas, incluindo a China Communications Construction Company (CCCC) e a China Civil Engineering Construction Corporation (CCECC).
Uma das principais soluções empregadas será uma plataforma operacional provisória que funcionará como corredor logístico sobre a água.
A estrutura permitirá deslocar trabalhadores, máquinas e materiais entre as frentes de construção, diminuindo a necessidade de operações com embarcações de apoio. Segundo as informações oficiais, a redução estimada pode chegar a aproximadamente 70%.
A implantação das fundações exige equipamentos de grande porte para a cravação de estacas metálicas no fundo da baía. Essas estruturas recebem as cargas dos pilares e transferem os esforços para as camadas resistentes do solo.
Em outubro, o governo também anunciou a mobilização do navio especializado Tie Jian Da Qiao Zhuang 1, vindo da China. A embarcação tem 130,5 metros de comprimento, capacidade de içamento de até 700 toneladas e estrutura de cravação de 156 metros.
Sua utilização está prevista para a execução de etapas profundas e complexas das fundações do vão central.
Quem vai pagar os R$ 11,6 bilhões da ponte?
O financiamento é uma das questões centrais do empreendimento.
A Ponte Salvador-Itaparica está estruturada como uma parceria público-privada (PPP), na qual o poder público e a concessionária dividem responsabilidades de investimento, construção e operação.
O valor atualmente divulgado para o empreendimento é de R$ 11,6 bilhões. Esse montante deve ser distinguido dos pagamentos previstos ao longo das décadas de concessão, que incluem contraprestações públicas e receitas de pedágio.
Segundo informações apresentadas ao Tribunal de Contas do Estado, os aportes públicos previstos durante a implantação são estimados em aproximadamente R$ 5,5 bilhões.
Em outubro de 2026, a União formalizou a destinação de R$ 3 bilhões para financiar parte desses aportes. Isso não significa um acréscimo automático de R$ 3 bilhões ao orçamento da obra, mas uma participação federal no financiamento público já previsto.
O contrato também estabelece pagamentos à concessionária durante a operação, além da arrecadação com as tarifas cobradas dos usuários.
A revisão contratual realizada em 2025 teve como justificativa as mudanças nas condições econômicas ocorridas após a pandemia, incluindo a elevação dos custos de construção e financiamento.
O Tribunal de Contas participou da mediação e continuará acompanhando a execução do contrato.
Quanto será o pedágio da Ponte Salvador-Itaparica?
A cobrança de pedágio está prevista no modelo de concessão.
Na tabela contratual divulgada pelo governo baiano, considerando a data-base de janeiro de 2019, estão estabelecidas duas praças na Ilha de Itaparica: uma na região de Mar Grande e outra nas proximidades da Ponte do Funil.
Os valores básicos de referência são de R$ 45 na praça de Mar Grande e R$ 5 na praça do Funil, para automóveis de passeio.
Esses valores não representam necessariamente o preço a ser cobrado quando a ponte começar a operar, pois estão sujeitos à atualização contratual pelo índice previsto.
O modelo também contempla desconto em determinadas viagens de retorno dentro de 24 horas.
Além dos custos para o motorista, o debate financeiro envolve a necessidade de acompanhar as despesas públicas, os pagamentos à concessionária e a demanda efetiva de veículos depois da inauguração.
Obra também prevê novas estradas em Salvador e na ilha
O projeto vai além da construção dos 12,4 quilômetros sobre o mar.
Em Salvador, estão previstos novos acessos, túneis e viadutos para conectar a estrutura à malha viária da capital, especialmente na região de Água de Meninos e da Via Expressa.
No lado da ilha, o sistema incluirá uma via expressa de aproximadamente 22 quilômetros, além da duplicação de cerca de nove quilômetros da BA-001 em direção à Ponte do Funil.
A expectativa do governo é criar um novo eixo de circulação para veículos e cargas, diminuindo percursos entre Salvador, o Recôncavo, o Baixo Sul e outras regiões baianas.
A ligação também poderá alterar a dinâmica imobiliária, turística e comercial dos municípios de Vera Cruz e Itaparica.
Entretanto, os resultados dependerão de investimentos complementares em saneamento, transporte público, infraestrutura urbana e serviços essenciais.
Impactos ambientais e comunidades tradicionais estão entre os desafios
A construção de uma estrutura desse porte na Baía de Todos-os-Santos exige acompanhamento dos impactos ambientais e sociais.
Entre os grupos potencialmente afetados estão pescadores artesanais, marisqueiras e comunidades tradicionais que dependem economicamente dos recursos naturais da região.
Em janeiro de 2026, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) considerou insuficiente a documentação apresentada para obtenção de sua anuência na etapa de licenciamento de instalação.
O órgão solicitou complementações relacionadas à avaliação dos impactos sobre o patrimônio cultural imaterial e às medidas de proteção das comunidades envolvidas.
O processo de licenciamento também envolve o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema).
O governo estadual afirma que mantém procedimentos de consulta e acompanhamento das comunidades tradicionais. A existência dessas iniciativas, porém, não dispensa o cumprimento das exigências técnicas e legais.
Outro desafio será evitar que a valorização imobiliária decorrente da nova ligação provoque deslocamentos populacionais ou crescimento urbano sem planejamento.
Durante a cerimônia de julho, o presidente Lula chamou a atenção para a necessidade de preservar a ilha diante da possibilidade de especulação imobiliária.
Ponte Salvador-Itaparica ficará pronta em 2031?
A previsão estabelecida no termo aditivo assinado em junho de 2025 é de conclusão das obras até junho de 2031.
O cronograma contempla a execução da ponte, dos acessos rodoviários e das intervenções previstas no sistema viário.
Depois da fase de implantação, a concessionária terá mais 29 anos de operação e manutenção do empreendimento.
O avanço registrado em outubro de 2026 é relevante, mas as 21 estacas anunciadas correspondem à estrutura provisória de apoio à construção do vão central. Elas não significam que os pilares definitivos da ponte já estejam concluídos.
Ainda será necessário executar fundações permanentes, pilares, tabuleiros, estruturas estaiadas, conexões rodoviárias e sistemas de segurança, além de cumprir as etapas de licenciamento aplicáveis.
Por isso, 2031 permanece como prazo contratual, não como garantia de inauguração.
Depois de décadas de promessas, a principal diferença agora é que o empreendimento apresenta frentes de trabalho em terra e no mar, recursos públicos formalizados e equipamentos especializados mobilizados.
A construção da Ponte Salvador-Itaparica poderá representar uma transformação importante na infraestrutura da Bahia. Sua efetiva contribuição para a mobilidade e a economia, contudo, dependerá não apenas da conclusão da engenharia, mas também do controle dos custos, da proteção ambiental e do planejamento das cidades que receberão a nova ligação.
