Uma intervenção artística em defesa da Palestina terminou em confusão envolvendo moradores e turistas israelenses em Itacaré, no litoral sul da Bahia. O episódio ocorreu em 30 de outubro, no Casarão Azul, imóvel histórico localizado na Praça São Miguel, e ganhou repercussão após a divulgação de vídeos nas redes sociais.

Os visitantes foram acusados por integrantes da Frente Palestina do Sul da Bahia de tentar danificar as pinturas realizadas na fachada do imóvel. Pessoas que estavam na praça reagiram à aproximação do grupo, dando início a uma discussão registrada em vídeo.

A situação ganhou novos desdobramentos quando o proprietário do casarão contestou o conteúdo da intervenção e determinou a retirada das mensagens. As pinturas acabaram sendo cobertas em 2 de novembro.

O caso reacendeu divergências sobre manifestações políticas, respeito à cultura local e convivência entre moradores e visitantes estrangeiros em um dos principais destinos turísticos da Bahia.

Como começou a confusão no Casarão Azul

A intervenção foi organizada pela Frente Palestina do Sul da Bahia, com participação de artistas, moradores e pessoas que acompanhavam a programação da Flicaré, feira literária realizada em Itacaré.

Segundo Mariá Veiga, coordenadora do movimento, a iniciativa havia sido discutida previamente com o proprietário do imóvel, Marcelo Barros.

Ela afirma que recebeu autorização verbal em 25 de outubro para pintar uma melancia na fachada. A fruta é utilizada como símbolo de solidariedade à Palestina por reunir as cores de sua bandeira.

Durante a atividade coletiva, outras pessoas passaram a contribuir com desenhos e mensagens. Além da melancia, foram incluídas frases em defesa da cultura brasileira, dos povos indígenas e da liberdade.

Entre as inscrições estavam referências à identidade baiana e a expressão política “Do rio ao mar”, associada ao conflito entre israelenses e palestinos.

O significado dessa expressão é controverso. Integrantes de movimentos pró-Palestina a interpretam como defesa da liberdade e dos direitos dos palestinos. Já organizações judaicas e grupos pró-Israel consideram que ela pode representar uma ameaça à existência do Estado de Israel.

Turistas são acusados de tentar danificar as pinturas

A confusão aconteceu na noite de 30 de outubro, poucas horas depois da conclusão do mural.

De acordo com a Frente Palestina do Sul da Bahia, um grupo de turistas israelenses se aproximou da fachada e tentou retirar parte da intervenção artística.

Pessoas que estavam na praça reagiram e começaram a discutir com os visitantes. Nas imagens divulgadas nas redes sociais, é possível ouvir manifestações contrárias à atitude atribuída aos turistas.

Os vídeos mostram o desentendimento, mas não permitem estabelecer, isoladamente, toda a sequência dos acontecimentos nem comprovar a extensão de eventuais danos ao patrimônio.

A denúncia de tentativa de vandalismo parte dos organizadores do mural. Até o momento, não há confirmação pública de responsabilização criminal dos visitantes por esse episódio específico.

Dono do casarão afirma que pinturas ultrapassaram autorização

Apesar da repercussão, a intervenção não permaneceu na fachada.

O proprietário, Marcelo Barros, afirmou que o conteúdo pintado nas paredes não correspondia ao que havia sido autorizado.

Segundo sua versão, o acordo previa elementos relacionados à natureza, à cultura e às características de Itacaré, mas não as mensagens políticas posteriormente incluídas.

Mariá Veiga reconheceu que a atividade ganhou dimensão maior com a participação espontânea de outras pessoas, mas sustenta que havia autorização para realizar a intervenção artística.

Após a divergência, o proprietário solicitou que as pinturas fossem removidas.

A coordenadora da Frente Palestina contratou um profissional para cobrir o mural na segunda-feira, 2 de novembro. O imóvel, pertencente à família Barros há mais de um século, também passou a contar com câmeras de monitoramento, segundo o proprietário.

Marcelo Barros informou que novas intervenções na fachada não estão autorizadas e defendeu que divergências políticas e religiosas não provoquem conflitos na cidade.

Episódio reacende tensões registradas em março

A discussão em torno do mural não foi o primeiro desentendimento envolvendo turistas israelenses e manifestações pró-Palestina em Itacaré em 2026.

Em 6 de março, uma trabalhadora ambulante denunciou ter sido agredida durante uma discussão com visitantes israelenses na região da Pituba.

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Segundo seu relato, o conflito ocorreu após uma reclamação sobre o comportamento de integrantes de um grupo de turistas. A mulher afirmou ter sido atingida no rosto por um aparelho celular e precisou de atendimento médico.

O relato gerou repercussão na cidade, mas a denúncia deve ser diferenciada de uma eventual conclusão policial ou judicial sobre a responsabilidade dos envolvidos.

Dias depois, em 14 de março, manifestações com posicionamentos contrários sobre a presença de turistas israelenses terminaram em tumulto.

Três israelenses, com idades entre 21 e 22 anos, foram conduzidos à Delegacia Territorial de Itacaré após uma abordagem policial.

De acordo com informações divulgadas pela Polícia Civil na ocasião, os três foram encaminhados por desacato e resistência. Eles foram ouvidos e liberados.

O episódio também provocou reações de representantes políticos e entidades da comunidade judaica.

O deputado estadual Hilton Coelho, do PSOL, manifestou apoio aos ativistas pró-Palestina. Por outro lado, a Sociedade Israelita da Bahia criticou manifestações que considerou preconceituosas e xenofóbicas.

As posições demonstram que o debate envolve diferentes interpretações sobre liberdade de manifestação, discriminação e os limites de protestos direcionados a visitantes estrangeiros.

Prefeitura de Itacaré nega conflito generalizado

A Prefeitura de Itacaré procurou diferenciar os episódios registrados na cidade de um conflito permanente entre moradores e turistas israelenses.

O secretário municipal de Comunicação, Albert Queiroz, afirmou que a discussão no Casarão Azul teve origem em divergências ideológicas e no conteúdo das pinturas.

Segundo ele, o município recebe turistas de diferentes nacionalidades e não adota distinções relacionadas à religião ou à origem dos visitantes.

Em nota divulgada em 5 de novembro, a administração municipal informou que não participou dos acordos privados envolvendo o uso do imóvel.

A prefeitura também repudiou manifestações de violência, intolerância e discriminação, ressaltando que eventuais conflitos entre particulares devem ser solucionados pelos envolvidos ou pelas autoridades competentes.

O governo municipal acrescentou que não cabe à prefeitura estabelecer um posicionamento institucional sobre a disputa entre Israel e Palestina.

Turismo amplia repercussão do caso

Itacaré tem no turismo uma das principais atividades econômicas. Conhecida por suas praias, áreas de Mata Atlântica e atividades culturais, a cidade recebe visitantes brasileiros e estrangeiros ao longo do ano.

Os israelenses estão entre os grupos de turistas internacionais que frequentam o município, especialmente durante a alta temporada.

Essa presença movimenta setores como hospedagem, alimentação, comércio e serviços, mas também coloca em evidência a necessidade de convivência respeitosa entre visitantes e a população local.

O secretário Albert Queiroz destacou a importância da atividade turística para a economia municipal e afirmou que todos os visitantes são bem-vindos, independentemente de nacionalidade ou crença.

A discussão ganhou dimensão adicional porque o casarão está localizado em uma praça pública de grande circulação e possui importância histórica para a cidade.

A controvérsia também envolve o direito de manifestação política e a necessidade de autorização para intervenções em propriedades privadas.

Mural foi apagado, mas discussão continua

Embora as pinturas tenham sido removidas, o episódio continua repercutindo entre moradores, ativistas e visitantes.

A Frente Palestina do Sul da Bahia considera a intervenção uma manifestação cultural e política de solidariedade ao povo palestino. O proprietário do imóvel sustenta que o conteúdo ultrapassou os limites da autorização concedida.

A prefeitura, por sua vez, defende que divergências sejam resolvidas sem violência ou discriminação.

O caso expõe os desafios de conciliar manifestações políticas, direitos individuais, preservação do patrimônio e atividade turística em Itacaré.

Até 6 de novembro, não havia confirmação pública de uma conclusão policial sobre a acusação de tentativa de vandalismo relacionada ao mural.