Casarões coloridos, igrejas centenárias, ladeiras de pedra, música e manifestações culturais transformaram o Pelourinho em uma das imagens mais reconhecidas da Bahia. Por trás do cenário que recebe visitantes do Brasil e do exterior, porém, existe uma história muito mais profunda e também dolorosa.
O bairro está inserido no Centro Histórico de Salvador, cidade fundada em 1549 e primeira capital do Brasil até 1763. A região concentrou funções administrativas, religiosas, comerciais e residenciais durante o período colonial e se tornou um dos pontos centrais da formação histórica da cidade.
A própria origem do nome “Pelourinho” ajuda a compreender esse passado. Pelourinhos eram estruturas utilizadas pelas autoridades coloniais como símbolos de poder e locais de punição pública. A história do espaço, portanto, está diretamente relacionada à sociedade escravista que marcou Salvador durante séculos.
Salvador cresceu como centro político e comercial da colônia
A posição estratégica de Salvador diante da Baía de Todos-os-Santos ajudou a transformar a cidade em um importante porto e centro econômico da América Portuguesa.
A UNESCO destaca que Salvador foi capital do Brasil entre 1549 e 1763 e tornou-se um ponto de encontro entre culturas europeias, africanas e indígenas. A instituição também registra a importância da cidade no comércio de pessoas escravizadas desde o século XVI.
Ao redor do atual Centro Histórico surgiram igrejas, edifícios administrativos, residências de famílias abastadas e estabelecimentos comerciais.
Essa riqueza arquitetônica, contudo, coexistia com a exploração de milhares de africanos escravizados que trabalhavam na cidade e em diferentes atividades econômicas.
O material que deu origem a esta matéria descreve justamente esse contraste entre o poder colonial e a presença africana que, mesmo sob intensa repressão, ajudaria posteriormente a formar parte essencial da identidade cultural de Salvador.
Cultura negra encontrou formas de sobreviver à repressão
A história do Pelourinho não se resume à violência do período escravista.
Práticas religiosas, música, dança, irmandades e outras formas de organização permitiram que tradições de origem africana fossem preservadas e transformadas ao longo das gerações.
Um dos exemplos mais conhecidos dessa presença é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída por uma irmandade formada por negros no período colonial.
A religiosidade, a música e diferentes manifestações culturais acabaram se tornando elementos fundamentais da identidade do Centro Histórico e de Salvador.
Essa dimensão ajuda a explicar por que o Pelourinho passou a ser associado não apenas ao passado colonial, mas também à resistência e à afirmação da cultura afro-brasileira.
Igrejas e casarões preservam séculos de arquitetura
O Centro Histórico de Salvador reúne construções dos séculos XVII ao XIX e conserva parte da configuração urbana desenvolvida desde o início da colonização portuguesa.
Entre os principais monumentos estão a Catedral Basílica, a Igreja e Convento de São Francisco e diversos edifícios civis e religiosos espalhados pelas ruas do centro.
O conjunto possui tamanha importância histórica e arquitetônica que o Centro Histórico de Salvador foi reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial em 1985.
O reconhecimento não se limita à aparência dos prédios. Para a UNESCO, a região representa também o encontro histórico entre diferentes culturas e a importância de Salvador na formação colonial brasileira.
Mudança da capital alterou a importância política de Salvador
Salvador deixou de ser capital do Brasil em 1763, quando a sede administrativa foi transferida para o Rio de Janeiro.
A mudança estava ligada, entre outros fatores, à crescente importância econômica e estratégica do Sudeste, especialmente por causa da mineração e das disputas territoriais no sul da colônia.
Ao longo dos séculos seguintes, diferentes áreas do Centro Histórico perderam parte do protagonismo econômico e político.
Casarões passaram por processos de deterioração e diversos imóveis acabaram transformados em habitações coletivas, enquanto moradores de baixa renda ocuparam partes do centro.
Revitalização dos anos 1990 mudou profundamente o Pelourinho
Uma nova etapa começou principalmente na década de 1990, quando programas públicos passaram a restaurar fachadas, casarões, ruas e espaços históricos.
Segundo a UNESCO, cerca de 1.350 imóveis foram restaurados no Pelourinho durante os anos 1990, dentro de uma estratégia que também buscava ampliar o potencial turístico e econômico da área.
As intervenções devolveram visibilidade ao patrimônio arquitetônico, mas também provocaram consequências sociais.
A própria UNESCO registra que a população residente no Centro Histórico caiu de 9.853 pessoas em 1980 para 3.235 em 2000. Pesquisas acadêmicas analisam o período como parte de um processo de substituição de moradores e comerciantes de menor renda, frequentemente discutido sob o conceito de gentrificação.
Por isso, a revitalização do Pelourinho permanece como um tema que envolve tanto preservação patrimonial quanto debates sobre moradia, turismo e permanência das comunidades tradicionais.
Música levou a imagem do Pelourinho para o mundo
A projeção cultural do bairro cresceu ainda mais com a força dos blocos afro, da percussão, da capoeira e de artistas ligados à cultura baiana.
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu na década de 1990, quando Michael Jackson gravou no Pelourinho parte do videoclipe de “They Don’t Care About Us” ao lado do Olodum.
A gravação ajudou a projetar internacionalmente a paisagem, a musicalidade e a presença da cultura negra de Salvador.
Muito antes disso, entretanto, grupos culturais, religiosos e moradores já mantinham vivas manifestações que transformaram o Centro Histórico em um dos principais polos culturais da Bahia. O material original destaca essa permanência como parte fundamental da reinvenção do bairro.
Pelourinho continua dividido entre turismo, memória e vida cotidiana
Atualmente, o Pelourinho reúne museus, igrejas, restaurantes, lojas, instituições culturais, moradores, artistas e milhares de visitantes.
A região é simultaneamente patrimônio histórico, espaço turístico e território de vivência.
Esse equilíbrio continua produzindo desafios. Preservação dos imóveis, segurança, ocupação residencial, atividade econômica e permanência das comunidades estão entre as questões que acompanham o desenvolvimento do Centro Histórico.
Por isso, conhecer o Pelourinho apenas pelas fachadas coloridas significa enxergar somente uma parte de sua história.
O bairro representa séculos de contradições: poder colonial e resistência, exploração e criação cultural, abandono e recuperação patrimonial.
Mais do que um cartão-postal, o Pelourinho permanece como um dos lugares onde a própria formação histórica de Salvador pode ser observada nas ruas.
